domingo, 31 de outubro de 2010

A CREDULIDADE MATA


Sou a credulidade em pessoa. Ouço os absurdos mais óbvios do mundo e sempre acredito. Acredito em tudo mesmo. Sou capaz de sonhar com essas besteiras dormindo ou acordada. Sou a idiota em pessoa.
- Você é de uma beleza fora da média. Gordinha coisa nenhuma, você está é muito sexy, muito sensual. Queria ser como você que quando entra, todo mundo olha.
- Você ainda é muito jovem, já, já encontra sua alma gêmea.
Cansei de acreditar nesses loucos e decidi colocar tudo em pratos limpos.
A alma gêmea só aparece para quem não está esperando por ela, para quem não a procura.  Os desesperados como eu, não têm a menor chance de encontrá-la. No meu caso, o mais perto que cheguei foi um esbarrão.
Inesperadamente conheci alguém e tive a sensação de que o conhecia a vida toda. Os olhares eram profundos, as conversas fluíam como água corrente. Transformei-me no ser mais espirituoso do mundo, tudo que dizia soava engraçado e inteligente.  Num piscar de olhos, nos transformamo em verdadeiros Deuses. Juntos éramos poderosos, maravilhosos. Paraíso, perfeição! Eu olhava para o dito cujo e só pensava em abraçá-lo, beijá-lo, em  fazer amor com ele. O lugar certo era ali com ele, onde estivesse. Mas para as azaradas como eu, nada é fácil.  Ele não estava nunca ao meu lado, morava em outra cidade, e só nos encontravamos de duas em duas semanas.
Aprendi a esperar pelo momento em que poderíamos estar juntos. Um belo dia não aguentei mais esperar e me declararei. E só então descobrir o que? Diga-me, o que? Descobri que o desgraçado é casado, casado!!!! Foi a pior burrice que fiz na vida!
É obvio que o resultado foi péssimo. Até parece que eu ia me meter no casamento dos outros, já tenho muitos tikuns para resolver nessa vida. Só queria dizer adeus de forma especial. Mas é isso aí, as impossibilidades são arrebatadoras e acabam achando em nosso peito o que temos de pior. Ele se transformou no sapo mais egocêntrico e covarde que conheci, e eu me tornei a mais triste das todas. Tinha tanto para ele, e o que ficou foi a sombra do que poderia ter sido.
E agora? Vou ter que esperar a próxima encarnação para achar esse vacilão mais uma vez e torcer para que dessa vez ele esteja pronto, solteiro e com coragem de me encontrar? Quantas encarnações terei que esperar por ele? Sim porque da forma que se comportou, ele ainda vai ralar muito para ser merecedor de sua alma gêmea, ou seja, eu. Ah, não é justo, essa vida não é nada justa!
E a beleza? A beleza acaba e ponto final. Quando temos grana e podemos lançar mão dos avanços da cosmética ou da cirurgia plástica, retardamos o momento fatal que é o dia em que você realmente se vê. Quando você vê a nova, a velha, a atual, você!  Se você não tem subterfúgios para fazer esse adiamento, se depara com a realidade, a sua cara vira uma máscara tão diferente de você mesma que dá até medo de olhar. Outro dia passando na frente do espelho, me olhei de relance. Deus me livre, quase tive um troço. Fala sério, nenhum ser humano que tenha passado por momentos duros na vida, o que com certeza é a maioria das pessoas, deveria ter que passar por isso.  É traumatizante e só deveria acontecer sob a supervisão de algum velho amigo de plantão. É inacreditável, não dá para aceitar e quem diz que aceita está mentindo para si mesmo, e é um mentiro empedernido.  
E essa coisa de gordinha sexy, o que é isso?  Quem diz isso ou precisa urgentemente de óculos ou é outro mentiroso empedernido. Fala sério. Gordo é gordo, não um magro em momento de transição.  Se você está acima do peso há mais de cinco anos, você agora é um gordo! Pronto, falei! Não adianta disfarçar. Ou você se toca ou vai acabar com diabetes e quem sabe tendo que amputar algum membro. Para de ficar se lembrando de como seu corpo era lindo, só músculo e bumbum.  Para de achar que por trás da sua imagem atual ainda mora aquela gata. O que mora atrás da sua imagem atual é muita gordura. Se toca!!!
Tendo feito aqui meu desabafo, vou passar o filtro solar, colocar meu tênis e ver se encontro minha alma gêmea no calçadão.
 

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

PANELAS E CUMBUCAS

Tenho cozinhado bastante. Inicialmente por obrigação e aos poucos, por prazer.
No computador que mora em meu coração, é só tocar a tecla certa e a memória dos momentos culinários se abre de imediato.
Cozinhar para mim é igual à vovó.
Lembro-me dos momentos deliciosos em sua cozinha. Como era bom o cheirinho dos doces que faziam com tanta paixão. Ela previa o sabor de cada um e se deliciava antecipadamente.
Cozinho instintivamente, porque minha real função na cozinha lá de casa, era separar claras e gemas e principalmente raspar as panelas e cumbucas. Não foi à toa que na minha gravidez engordei 20 kilos ao fazer os doces de nosso restaurante do interior. Fazia muitas tortas por dia, ou seja, passava a maior parte do dia envolvida nessa lembrança de infância. Era só chegar à bancada dos doces e já matava imediatamente um pouquinho das saudades da vovó. Não sei como minha filha não nasceu com a cara dela ou pelo menos com cara de cumbuca.
Adorava vai escolher os ingredientes para cada prato. Como eu faço hoje em dia, ela separava tudo em potinhos e aos poucos ia juntando aqueles temperos deliciosos, aqueles matinhos com nomes engraçados. Salsinha que não era estilo de música no diminutivo, louro que não era a cor do cabelo do menino mais lindo da escola, canela que não era parte do corpo, enfim, um milhão de nomes que ela conhecia com intimidade.
Hoje minha filha também por instinto, não come qualquer coisa. Não que exija comidas sofisticadas, mas sim, comidas feitas com carinho. Cozinhar para ela é um prazer que abraça nós duas. Eu, revivo momentos preciosos, e ela vai arquivando em sua memória seu próprio passado.

sábado, 16 de outubro de 2010

UM ANJO

Hoje, eu descobri um anjo.
É assim mesmo que funciona, eles existem e se camuflam por aí. À paisana não percebemos sua presença.
Aí um belo dia eles se descuidam e damos de cara com eles, assim, sem mais nem menos. Um pequeno gesto ou um olhar nos mostra quem são, sua verdadeira identidade.
Um anjo não é aquele que faz milagres e sim aquele que está no local certo bem na hora em que você precisa.
Às vezes é preciso apenas um aperto de mão, por vezes, um pouco mais, mas eles sempre sabem o que te falta, o que te salvará: um pouco de esperança, um pouco de realidade, um pouco de amor, de reconhecimento.
Sou grata a todos os anjos que conheci, a cada pequeno milagre que me faz acreditar.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

O SEGREDO

A felicidade é um momento, não é?
É o momento da compreensão. Quando seu olhar toca alguém e você percebe que contou naquele segundo uma história inteirinha. Naquele segundo, todos os instantes colecionados na vida, estão ali.Todas as histórias felizes ou não, tudo de tudo está contido ali.
O olhar do outro te diz, sim, entendi, sei do que está falando, reconheço o que está me contando. Estamos juntos!!!!!
É um momento de pura magia! Em silêncio posso contar um grande segredo, entendido por todos. 
Sem esses momentos não sou nada, não sei dizer nada. Nesses momentos sou feliz, posso ser todas que sou.
Esse é o segredo de ser uma atriz! 

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

MEU PAI







Meu pai era um homem misterioso. Muito silêncio, poucos olhares, mas um sorriso largo e contido que encantava a todos. Parecia que vivia a vida que escolhera, ao mesmo tempo em que demonstrava sempre uma amargura que denunciava sua insatisfação com a vida.
Nossa relação sempre foi ambígua. Não gostava do controle que exercia sobre mim, mas gostava dos seus talentos. Era um homem que andava pelos campos te dando todo tipo de sementes e folhinhas para comer e chamando os passarinhos usando os vários "pios" que colecionava.  Sabia o nome de todos os pássaros e de todos os animais viventes na Terra ou em qualquer outro planeta do sistema solar.
Construía suas casas e plantava suas árvores. Em uma das fazendas, construiu uma casa rodeada pelo pomar mais interessante que se possa imaginar. Conforma as árvores cresciam, ele construía mais um andar para que pudesse ver toda a fazenda por cima da copa das árvores e correr a tempo de apagar os vários incêndios que ocorriam no inverno. Tinha tantas habilidades que era impossível não ficar fascinada. Tudo parecia tão fácil para ele, sempre tinha um jeitinho para tudo. Com um simples elástico era capaz de prender um universo inteiro. Vejo-o hoje em dia, em mim e na minha irmã. Nós também somos poderosas, somos muitas, mas a diferença é que ainda não aceitamos isso.

domingo, 19 de setembro de 2010

EU E ELA







Domingo à noite, o pesadelo dos pesadelos!
Eu aqui sentada chorando por tudo, pelo o que foi e pelo o que é.
Espero minha filha chegar de viagem e já me sinto como ontem, entro no túnel do tempo. Uma onda de tristeza vem chegando e me alcança com um soco. Lembro-me! Ando me lembrando de tudo e assim, sinto tudo mais uma vez. Sinto-me chegando em casa sozinha, no escuro, no silêncio, numa casa vazia. Vazia de tudo, vazia de tudo!
Era assim que eu vivia, sozinha... Quando pequena minha mãe dizia que ao contrário de minha irmã que dava muito trabalho, eu ficava quietinha no meu canto horas a fio. Com certeza, foi aí que aprendi que se ficasse quieta, talvez ela gostasse um pouco de mim, talvez ela me aceitasse. Não fui autista por pouco de tanto que gostava dela. Nunca soube bem porque, nunca conseguir entender claramente. Talvez eu visse algo mais, por trás daquela distância, talvez eu visse sua própria dor e sentisse pena dela. Às vezes acho que é isso. Gosto dela não pelo que ela me deu, mas pelo que ela não deu. Pelo que ela não pode ser de tanta dor que a acompanhava. Essa compreensão não deveria me deter. Não deveria me impedir de odiá-la por tudo que fez e que não fez, mas, me rendo, sempre me rendo a ela. Mesmo depois de morta, ela vive sua tristeza em mim.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

HUUMMMS....ALHEIOS!











Tenho cozinhado bastante ultimamente, o que me remete às melhores refeições que desfrutei. Aromas, sabores e texturas, pura delícia em momentos de prazer e por vezes de espanto. Dentre todas as pessoas que conheci, minha avó foi a pessoa que comia com mais prazer.  Chegava a ser desconcertante. Colocava um pedaço de fruta na boca, fechava os olhos e exclamava.
- HUUMMM...... Apesar de tão pequena, eu pressentia algo mais profundo naquela exclamação.  Era impossível não intuir que existia ali, algo de muito íntimo, muito sensual. Aquela intimidade compulsória me incomodava.

Outro HUUMMM..... marcante em minha vida, veio de meu pai.
Ele passava a metade da semana na fazenda e quando chegava ao Rio nos avisava. Era quase uma convocação porque ficava obrigada a segui-lo durante o dia quase todo. Sentia-me desconfortável. Ele quase que me sequestrava. Se ao chegar em sua casa ele estivesse lendo o jornal, se limitava apenas a me embrulhar entre seus braços, pernas e jornal. Eu ficava lá, presa até que ele acabasse de ler. Uma sensação devastadora. Aquilo ia me dando uma raiva...
Em um daqueles dias cheguei em sua casa e ele estava dormindo em seu quarto. Fui até lá e lhe dei um beijinho querendo acordá-lo. Ele ainda dormindo me deu um abraço meloso e disse: Meu amor, HUUMMM.....No mesmo momento, ele e eu, levamos um baita susto. Percebemos imediatamente o engano. Eu não era a pessoa a quem ele se referia naquela declaração de amor tão explícita. Mais uma vez fui obrigada a vivenciar um momento tão íntimo alheio. Essa sensação está sempre aqui comigo, inadequação.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

AS ROLINHAS







Vivíamos em uma enorme casa na zona sul do Rio de Janeiro. Lá convivíamos com uma grande variedade de animais.
Dentre os nativos da área, havia as Rolinhas, minhas queridas Rolinhas! Tão elegantes apesar de suas barriguinhas roliças e perninhas curtas.
Sempre gostei muito delas porque vivem sempre aos pares, o que indica bom caráter e natureza dócil.
Sentadinha no alambrado de uma das janelas do meu quarto, gostava de observá-las. Como era simples aquela vidinha calma. Nada de saudades, nada de medo, nada de nada. Ah, que inveja!
Nunca encontrei nenhum de seus ninhos, um mistério! Para onde iam quando batiam asas e saíam lá de casa? Onde dormiam, onde construíam os ninhos para seus filhotes.
Nos dias chuvosos me preocupava um pouco com elas, mas no fundo tinha certeza de que estariam provavelmente melhor do que eu!
Seus olhinhos redondinhos de bola de gude eram meigos e por vezes pareciam conter toda a inteligência do mundo. 
Elas viviam ali, naquele momento, nada mais. Não existia mais nada , além daquela terra macia cheia de minhocas gordinhas, daquela água fresquinha do tanque dos peixes, da sobra refrescante das três Jabuticabeiras, das Mangueiras, da árvore de Sapoti, das Goiabeiras....
Em um momento, toda uma vida! Sem pudor algum, bem ali,  na minha frente.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

AS TRÊS JABUTICABEIRAS - PRIMEIRA FASE






















As Jabuticabeiras me acompanham pela vida a fora. Juntamente com as mangueiras, eram minhas plantas preferidas em todo o mundo. Em diversas fases marcantes da vida, lá estavam seus frutinhos, gordinhos e atraentes me chamando. 
Na casa da vovó, havia 3 pés enormes. Ou será que eu que era tão pequenina?
Em baixo de cada um deles, havia um banco de pedras muito confortável. Sob o banco do meio morava um de nossos jabutis. Eles também eram três mas apenas um se deliciava com aquela sombrinha gostosa. Sombra que sempre nos acolhia depois das corridas de bicicleta, ou após o queimado, um dos meus jogos preferidos. 
Gostava de me sentar ali, comer aquelas delícias até estourar pensando na vida: 
De que brincaríamos à tarde? 
Quantas galinhas livraríamos do galinheiro para que pudéssemos "laçar o gado" com nossas longas cordas e velozes cavalos de vassoura. 
Onde teria se enfiado o Petit e a Pois, nosso casal de cachorrinhos? 
Será que minha irmã me emprestaria o arcodeão para eu brincar de secretária?
Onde será mesmo que deixei o lápis vermelho, o meu preferido de toda a coleção de lápis pequenininhos. 
Quando será que a mamãe virá nos ver. Será que ficará bastante tempo para que eu mate um pouquinho as saudades que me acordam todas as noites? 

Pois é, as Jabuticabeiras eram quase amigas. Eram tão importantes que anos atrás herdei uma série de fotos dessa época e em cada uma delas aparecia uma das Jabuticabeiras. Nas fotos, elas tomavam conta de meu avô e sua inseparável bengala, dos tios e tias, dos primos e até de mim, com aquela carinha sorridente e sem dentes que escondia tantos mundos.

A FARRA DA LAMA












Falando em banhos, me lembro de um dos melhores e mais sujos de todos.
Um banho da minha filha aos 3 anos. Banho de lama!  
Em uma decisão muito controversa me mudei de mala e cuia para uma cidade do interior. Não com o apoio da família ou dos amigos. Alguém até chegou a me dizer que as pessoas têm direito de fazer três grandes burradas na vida e que eu esta prestes a dar início às minhas. Parece que todos sabiam o que eu não conseguia ver. Não daria certo! Por lá passei menos de 18 meses. 
Transferimos nossa casa, abrimos um negócio, a criança mais linda deste mundo nasceu e antes de seus nove meses de idade, eu já estava pronta para voltar. Pronta não, desesperada. À época eu achava que estava vivendo um pesadelo, a pior situação de todas. Ah, eu não sabia de nada!
Minha menina nasceu nessa cidade que somava os defeitos de uma cidade pequena e os de uma grande, mas uma coisa não se discute. Os dias de farra eram ótimos. Todos acreditavam que as crianças são fortes, que os micróbios, tombos e arranhões são a melhor escola, e que o que não mata, com certeza engorda. As crianças corriam livres e aprontavam todas sob o olhar discreto da família.
Durante uma de nossas muitas voltas à cidade, fomos ao clube de campo para comemorar um aniversário. Era um quentíssimo dia de verão, após uma "chuvarada" daquelas. A "primalhada", com idades similares brincava com água e baldinhos coloridos. Uma brincadeira simples que se transformou em um delicioso e completo banho de lama. 
Os pais felizes olhavam uns aos outros com olhar de quem pode a qualquer momento entrar na brincadeira e os pequenos nos olhavam como quem pode sair da brincadeira imediatamente, urgentemente, ou não.
Muitas fotos, gritinhos e guerra de lama entre carinhas de prazer e nojo. As crianças dançarinas bailaram imundas e cheias de graça.  
Para coroar o dia, um comportado banho de mangueira e muitos, muitos beijinhos dos pais orgulhosos pela audácia de todos.
Um momento para se guardar no fundinho do coração.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

REMOTA LEMBRANÇA


REMOTA LEMBRANÇA

A lembrança mais remota que tenho de mim mesma, é em um sonho que minha mãe teve comigo enquanto ainda estava me gerando. Pura simbiose. Ela me recontava esse sonho quando queria disfarçar sua falta de conexão com as filhas ou quando queria reforçar sua própria crença de que existia algo terno, dentro dela. É, eu tenho uma irmã, uma companheira de infortúnios. Sobre ela falo em outro momento.
No sonho eu aparecia sentadinha na beira de sua cama na fazenda e lhe dizia:
- Sou sua filha.
Antes do falecimento do que restou dela, gostava de contar que nasci exatamente com o rostinho daquela criança, o mesmo cabelo, o mesmo cacho caindo na testa. Nunca acreditei nela, não por falta de uma grande vontade, mas certamente por experiências vividas em outros tempos, outras vidas. Nunca confiei nela, porem nunca pude me separar dela. Era e ainda hoje sou como um inseto inebriado pelo cheiro doce exalado por uma planta carnívora.
Na lembrança seguinte me vejo na banheira da casa de minha avó que cuidou das duas pequeninas após o abandono da planta carnívora. 
Nessa época, separada de meu pai e muito, muito jovem, ela tinha mais o que fazer. Tinha sua vida para lidar e inventar. Quando digo inventar, estou sendo literal. Pela vida afora nos confrontamos com depoimentos de fatos que nunca existiram, histórias todas inventadas pela necessidade de existir de forma mais aceitável para ela mesma. 
Bem, voltando à lembrança nesse dia, eu com 2 anos no máximo, tomava banho com minha querida babá na banheira da minha bisavó. Ah, banho na banheira da Bisa, fato que sempre foi um momento de merecimento de tão especial. Sobre aquele banheiro maravilhoso, falo mais tarde. 
Como todos que nos cercavam, nossa babá era uma pessoa quieta , mas atenciosa e talvez a única pessoa nesse mundo de meu Deus que olhava para nós constantemente. Sempre sabia onde estávamos e o que fazíamos.
Durante o banho, ela me segurava e jogava água quentinha nas minhas costas. Lembro-me perfeitamente da sensação de aconchego, de bom trato. O sabonete Phebo cheirava tão bem!
Um barulho horrível de repente e quando percebo estou sozinha na banheira, com medo de me afogar. Lembro-me de tudo, os gritos, o barulho dos sapatos descendo a escada em correria. Todos chamavam o nome de minha irmã que havia pulado o portão e feito uma das apostas mais idiotas de sua vida. 
Quem pularia o portão, atravessaria a rua e voltaria mais rápido, ela ou nossa tia de criação?
Não tenho certeza, mas tenho cá para mim que o carro que a atropelou era o nosso próprio carro dirigido pelo motorista mais gentil e azarado do mundo. Uma das rodas passou por cima dela, deixando uma cicatriz irreparável em sua alma. Sua orelha esquerda e parte de suas costas guardam até hoje as marcas do pneu.
Essa sensação me acompanha vida afora. Pela urgência dos acontecimentos, vou sendo deixada de lado a minha própria sorte, vou sobrando, fico invisível.

INÍCIO OU FIM?


Começo agora a simples tentativa de um tomar um banho! 

Lembra daqueles banhos ao ar livre da infância, quando a alegria e felicidade do momento tão simples não podia ser tocada por nenhum sofrimento? 
Aquele momento antes da tristeza e do silêncio, onde tudo era riso, movimento e completude. Todos existiam e eram imprescindíveis para que aquele momento fosse perfeito?

Cada Leão tem seu dedo, sua identidade. 
Relembrando momentos lindos ou não, venho falar desse Leão cansado.

O que acontecerá depois dos banhos?