segunda-feira, 30 de agosto de 2010

REMOTA LEMBRANÇA


REMOTA LEMBRANÇA

A lembrança mais remota que tenho de mim mesma, é em um sonho que minha mãe teve comigo enquanto ainda estava me gerando. Pura simbiose. Ela me recontava esse sonho quando queria disfarçar sua falta de conexão com as filhas ou quando queria reforçar sua própria crença de que existia algo terno, dentro dela. É, eu tenho uma irmã, uma companheira de infortúnios. Sobre ela falo em outro momento.
No sonho eu aparecia sentadinha na beira de sua cama na fazenda e lhe dizia:
- Sou sua filha.
Antes do falecimento do que restou dela, gostava de contar que nasci exatamente com o rostinho daquela criança, o mesmo cabelo, o mesmo cacho caindo na testa. Nunca acreditei nela, não por falta de uma grande vontade, mas certamente por experiências vividas em outros tempos, outras vidas. Nunca confiei nela, porem nunca pude me separar dela. Era e ainda hoje sou como um inseto inebriado pelo cheiro doce exalado por uma planta carnívora.
Na lembrança seguinte me vejo na banheira da casa de minha avó que cuidou das duas pequeninas após o abandono da planta carnívora. 
Nessa época, separada de meu pai e muito, muito jovem, ela tinha mais o que fazer. Tinha sua vida para lidar e inventar. Quando digo inventar, estou sendo literal. Pela vida afora nos confrontamos com depoimentos de fatos que nunca existiram, histórias todas inventadas pela necessidade de existir de forma mais aceitável para ela mesma. 
Bem, voltando à lembrança nesse dia, eu com 2 anos no máximo, tomava banho com minha querida babá na banheira da minha bisavó. Ah, banho na banheira da Bisa, fato que sempre foi um momento de merecimento de tão especial. Sobre aquele banheiro maravilhoso, falo mais tarde. 
Como todos que nos cercavam, nossa babá era uma pessoa quieta , mas atenciosa e talvez a única pessoa nesse mundo de meu Deus que olhava para nós constantemente. Sempre sabia onde estávamos e o que fazíamos.
Durante o banho, ela me segurava e jogava água quentinha nas minhas costas. Lembro-me perfeitamente da sensação de aconchego, de bom trato. O sabonete Phebo cheirava tão bem!
Um barulho horrível de repente e quando percebo estou sozinha na banheira, com medo de me afogar. Lembro-me de tudo, os gritos, o barulho dos sapatos descendo a escada em correria. Todos chamavam o nome de minha irmã que havia pulado o portão e feito uma das apostas mais idiotas de sua vida. 
Quem pularia o portão, atravessaria a rua e voltaria mais rápido, ela ou nossa tia de criação?
Não tenho certeza, mas tenho cá para mim que o carro que a atropelou era o nosso próprio carro dirigido pelo motorista mais gentil e azarado do mundo. Uma das rodas passou por cima dela, deixando uma cicatriz irreparável em sua alma. Sua orelha esquerda e parte de suas costas guardam até hoje as marcas do pneu.
Essa sensação me acompanha vida afora. Pela urgência dos acontecimentos, vou sendo deixada de lado a minha própria sorte, vou sobrando, fico invisível.

Nenhum comentário:

Postar um comentário