terça-feira, 31 de agosto de 2010

AS TRÊS JABUTICABEIRAS - PRIMEIRA FASE






















As Jabuticabeiras me acompanham pela vida a fora. Juntamente com as mangueiras, eram minhas plantas preferidas em todo o mundo. Em diversas fases marcantes da vida, lá estavam seus frutinhos, gordinhos e atraentes me chamando. 
Na casa da vovó, havia 3 pés enormes. Ou será que eu que era tão pequenina?
Em baixo de cada um deles, havia um banco de pedras muito confortável. Sob o banco do meio morava um de nossos jabutis. Eles também eram três mas apenas um se deliciava com aquela sombrinha gostosa. Sombra que sempre nos acolhia depois das corridas de bicicleta, ou após o queimado, um dos meus jogos preferidos. 
Gostava de me sentar ali, comer aquelas delícias até estourar pensando na vida: 
De que brincaríamos à tarde? 
Quantas galinhas livraríamos do galinheiro para que pudéssemos "laçar o gado" com nossas longas cordas e velozes cavalos de vassoura. 
Onde teria se enfiado o Petit e a Pois, nosso casal de cachorrinhos? 
Será que minha irmã me emprestaria o arcodeão para eu brincar de secretária?
Onde será mesmo que deixei o lápis vermelho, o meu preferido de toda a coleção de lápis pequenininhos. 
Quando será que a mamãe virá nos ver. Será que ficará bastante tempo para que eu mate um pouquinho as saudades que me acordam todas as noites? 

Pois é, as Jabuticabeiras eram quase amigas. Eram tão importantes que anos atrás herdei uma série de fotos dessa época e em cada uma delas aparecia uma das Jabuticabeiras. Nas fotos, elas tomavam conta de meu avô e sua inseparável bengala, dos tios e tias, dos primos e até de mim, com aquela carinha sorridente e sem dentes que escondia tantos mundos.

A FARRA DA LAMA












Falando em banhos, me lembro de um dos melhores e mais sujos de todos.
Um banho da minha filha aos 3 anos. Banho de lama!  
Em uma decisão muito controversa me mudei de mala e cuia para uma cidade do interior. Não com o apoio da família ou dos amigos. Alguém até chegou a me dizer que as pessoas têm direito de fazer três grandes burradas na vida e que eu esta prestes a dar início às minhas. Parece que todos sabiam o que eu não conseguia ver. Não daria certo! Por lá passei menos de 18 meses. 
Transferimos nossa casa, abrimos um negócio, a criança mais linda deste mundo nasceu e antes de seus nove meses de idade, eu já estava pronta para voltar. Pronta não, desesperada. À época eu achava que estava vivendo um pesadelo, a pior situação de todas. Ah, eu não sabia de nada!
Minha menina nasceu nessa cidade que somava os defeitos de uma cidade pequena e os de uma grande, mas uma coisa não se discute. Os dias de farra eram ótimos. Todos acreditavam que as crianças são fortes, que os micróbios, tombos e arranhões são a melhor escola, e que o que não mata, com certeza engorda. As crianças corriam livres e aprontavam todas sob o olhar discreto da família.
Durante uma de nossas muitas voltas à cidade, fomos ao clube de campo para comemorar um aniversário. Era um quentíssimo dia de verão, após uma "chuvarada" daquelas. A "primalhada", com idades similares brincava com água e baldinhos coloridos. Uma brincadeira simples que se transformou em um delicioso e completo banho de lama. 
Os pais felizes olhavam uns aos outros com olhar de quem pode a qualquer momento entrar na brincadeira e os pequenos nos olhavam como quem pode sair da brincadeira imediatamente, urgentemente, ou não.
Muitas fotos, gritinhos e guerra de lama entre carinhas de prazer e nojo. As crianças dançarinas bailaram imundas e cheias de graça.  
Para coroar o dia, um comportado banho de mangueira e muitos, muitos beijinhos dos pais orgulhosos pela audácia de todos.
Um momento para se guardar no fundinho do coração.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

REMOTA LEMBRANÇA


REMOTA LEMBRANÇA

A lembrança mais remota que tenho de mim mesma, é em um sonho que minha mãe teve comigo enquanto ainda estava me gerando. Pura simbiose. Ela me recontava esse sonho quando queria disfarçar sua falta de conexão com as filhas ou quando queria reforçar sua própria crença de que existia algo terno, dentro dela. É, eu tenho uma irmã, uma companheira de infortúnios. Sobre ela falo em outro momento.
No sonho eu aparecia sentadinha na beira de sua cama na fazenda e lhe dizia:
- Sou sua filha.
Antes do falecimento do que restou dela, gostava de contar que nasci exatamente com o rostinho daquela criança, o mesmo cabelo, o mesmo cacho caindo na testa. Nunca acreditei nela, não por falta de uma grande vontade, mas certamente por experiências vividas em outros tempos, outras vidas. Nunca confiei nela, porem nunca pude me separar dela. Era e ainda hoje sou como um inseto inebriado pelo cheiro doce exalado por uma planta carnívora.
Na lembrança seguinte me vejo na banheira da casa de minha avó que cuidou das duas pequeninas após o abandono da planta carnívora. 
Nessa época, separada de meu pai e muito, muito jovem, ela tinha mais o que fazer. Tinha sua vida para lidar e inventar. Quando digo inventar, estou sendo literal. Pela vida afora nos confrontamos com depoimentos de fatos que nunca existiram, histórias todas inventadas pela necessidade de existir de forma mais aceitável para ela mesma. 
Bem, voltando à lembrança nesse dia, eu com 2 anos no máximo, tomava banho com minha querida babá na banheira da minha bisavó. Ah, banho na banheira da Bisa, fato que sempre foi um momento de merecimento de tão especial. Sobre aquele banheiro maravilhoso, falo mais tarde. 
Como todos que nos cercavam, nossa babá era uma pessoa quieta , mas atenciosa e talvez a única pessoa nesse mundo de meu Deus que olhava para nós constantemente. Sempre sabia onde estávamos e o que fazíamos.
Durante o banho, ela me segurava e jogava água quentinha nas minhas costas. Lembro-me perfeitamente da sensação de aconchego, de bom trato. O sabonete Phebo cheirava tão bem!
Um barulho horrível de repente e quando percebo estou sozinha na banheira, com medo de me afogar. Lembro-me de tudo, os gritos, o barulho dos sapatos descendo a escada em correria. Todos chamavam o nome de minha irmã que havia pulado o portão e feito uma das apostas mais idiotas de sua vida. 
Quem pularia o portão, atravessaria a rua e voltaria mais rápido, ela ou nossa tia de criação?
Não tenho certeza, mas tenho cá para mim que o carro que a atropelou era o nosso próprio carro dirigido pelo motorista mais gentil e azarado do mundo. Uma das rodas passou por cima dela, deixando uma cicatriz irreparável em sua alma. Sua orelha esquerda e parte de suas costas guardam até hoje as marcas do pneu.
Essa sensação me acompanha vida afora. Pela urgência dos acontecimentos, vou sendo deixada de lado a minha própria sorte, vou sobrando, fico invisível.

INÍCIO OU FIM?


Começo agora a simples tentativa de um tomar um banho! 

Lembra daqueles banhos ao ar livre da infância, quando a alegria e felicidade do momento tão simples não podia ser tocada por nenhum sofrimento? 
Aquele momento antes da tristeza e do silêncio, onde tudo era riso, movimento e completude. Todos existiam e eram imprescindíveis para que aquele momento fosse perfeito?

Cada Leão tem seu dedo, sua identidade. 
Relembrando momentos lindos ou não, venho falar desse Leão cansado.

O que acontecerá depois dos banhos?