quarta-feira, 22 de setembro de 2010

MEU PAI







Meu pai era um homem misterioso. Muito silêncio, poucos olhares, mas um sorriso largo e contido que encantava a todos. Parecia que vivia a vida que escolhera, ao mesmo tempo em que demonstrava sempre uma amargura que denunciava sua insatisfação com a vida.
Nossa relação sempre foi ambígua. Não gostava do controle que exercia sobre mim, mas gostava dos seus talentos. Era um homem que andava pelos campos te dando todo tipo de sementes e folhinhas para comer e chamando os passarinhos usando os vários "pios" que colecionava.  Sabia o nome de todos os pássaros e de todos os animais viventes na Terra ou em qualquer outro planeta do sistema solar.
Construía suas casas e plantava suas árvores. Em uma das fazendas, construiu uma casa rodeada pelo pomar mais interessante que se possa imaginar. Conforma as árvores cresciam, ele construía mais um andar para que pudesse ver toda a fazenda por cima da copa das árvores e correr a tempo de apagar os vários incêndios que ocorriam no inverno. Tinha tantas habilidades que era impossível não ficar fascinada. Tudo parecia tão fácil para ele, sempre tinha um jeitinho para tudo. Com um simples elástico era capaz de prender um universo inteiro. Vejo-o hoje em dia, em mim e na minha irmã. Nós também somos poderosas, somos muitas, mas a diferença é que ainda não aceitamos isso.

domingo, 19 de setembro de 2010

EU E ELA







Domingo à noite, o pesadelo dos pesadelos!
Eu aqui sentada chorando por tudo, pelo o que foi e pelo o que é.
Espero minha filha chegar de viagem e já me sinto como ontem, entro no túnel do tempo. Uma onda de tristeza vem chegando e me alcança com um soco. Lembro-me! Ando me lembrando de tudo e assim, sinto tudo mais uma vez. Sinto-me chegando em casa sozinha, no escuro, no silêncio, numa casa vazia. Vazia de tudo, vazia de tudo!
Era assim que eu vivia, sozinha... Quando pequena minha mãe dizia que ao contrário de minha irmã que dava muito trabalho, eu ficava quietinha no meu canto horas a fio. Com certeza, foi aí que aprendi que se ficasse quieta, talvez ela gostasse um pouco de mim, talvez ela me aceitasse. Não fui autista por pouco de tanto que gostava dela. Nunca soube bem porque, nunca conseguir entender claramente. Talvez eu visse algo mais, por trás daquela distância, talvez eu visse sua própria dor e sentisse pena dela. Às vezes acho que é isso. Gosto dela não pelo que ela me deu, mas pelo que ela não deu. Pelo que ela não pode ser de tanta dor que a acompanhava. Essa compreensão não deveria me deter. Não deveria me impedir de odiá-la por tudo que fez e que não fez, mas, me rendo, sempre me rendo a ela. Mesmo depois de morta, ela vive sua tristeza em mim.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

HUUMMMS....ALHEIOS!











Tenho cozinhado bastante ultimamente, o que me remete às melhores refeições que desfrutei. Aromas, sabores e texturas, pura delícia em momentos de prazer e por vezes de espanto. Dentre todas as pessoas que conheci, minha avó foi a pessoa que comia com mais prazer.  Chegava a ser desconcertante. Colocava um pedaço de fruta na boca, fechava os olhos e exclamava.
- HUUMMM...... Apesar de tão pequena, eu pressentia algo mais profundo naquela exclamação.  Era impossível não intuir que existia ali, algo de muito íntimo, muito sensual. Aquela intimidade compulsória me incomodava.

Outro HUUMMM..... marcante em minha vida, veio de meu pai.
Ele passava a metade da semana na fazenda e quando chegava ao Rio nos avisava. Era quase uma convocação porque ficava obrigada a segui-lo durante o dia quase todo. Sentia-me desconfortável. Ele quase que me sequestrava. Se ao chegar em sua casa ele estivesse lendo o jornal, se limitava apenas a me embrulhar entre seus braços, pernas e jornal. Eu ficava lá, presa até que ele acabasse de ler. Uma sensação devastadora. Aquilo ia me dando uma raiva...
Em um daqueles dias cheguei em sua casa e ele estava dormindo em seu quarto. Fui até lá e lhe dei um beijinho querendo acordá-lo. Ele ainda dormindo me deu um abraço meloso e disse: Meu amor, HUUMMM.....No mesmo momento, ele e eu, levamos um baita susto. Percebemos imediatamente o engano. Eu não era a pessoa a quem ele se referia naquela declaração de amor tão explícita. Mais uma vez fui obrigada a vivenciar um momento tão íntimo alheio. Essa sensação está sempre aqui comigo, inadequação.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

AS ROLINHAS







Vivíamos em uma enorme casa na zona sul do Rio de Janeiro. Lá convivíamos com uma grande variedade de animais.
Dentre os nativos da área, havia as Rolinhas, minhas queridas Rolinhas! Tão elegantes apesar de suas barriguinhas roliças e perninhas curtas.
Sempre gostei muito delas porque vivem sempre aos pares, o que indica bom caráter e natureza dócil.
Sentadinha no alambrado de uma das janelas do meu quarto, gostava de observá-las. Como era simples aquela vidinha calma. Nada de saudades, nada de medo, nada de nada. Ah, que inveja!
Nunca encontrei nenhum de seus ninhos, um mistério! Para onde iam quando batiam asas e saíam lá de casa? Onde dormiam, onde construíam os ninhos para seus filhotes.
Nos dias chuvosos me preocupava um pouco com elas, mas no fundo tinha certeza de que estariam provavelmente melhor do que eu!
Seus olhinhos redondinhos de bola de gude eram meigos e por vezes pareciam conter toda a inteligência do mundo. 
Elas viviam ali, naquele momento, nada mais. Não existia mais nada , além daquela terra macia cheia de minhocas gordinhas, daquela água fresquinha do tanque dos peixes, da sobra refrescante das três Jabuticabeiras, das Mangueiras, da árvore de Sapoti, das Goiabeiras....
Em um momento, toda uma vida! Sem pudor algum, bem ali,  na minha frente.