A Digito Cognoscitur Leo
sexta-feira, 27 de julho de 2018
Alguma peça perto do metrô?
Vendi meu carro há pouco tempo e minha vida mudou.
Agora, como sou praticamente uma reclusa quando necessário, ando de metrô ou uso algum aplicativo de taxi.
Minha vida social se expandiu muito desde então. Vejo e converso com muito mais gente.
Entro no metrô e minha atenção logo se espalha. Tantas figuras impressionantes. Todas me surpreendem. Como chegaram até ali, o que lhes faltou, o que foi demais?
Não consigo evitar minha invasão, mas também, cada um explode sua vida na minha cara sem a menor compostura! Me informam que dormiram pouco, que trabalharam muito, que moram longe ou logo ali, que amam demais, que estão sós como eu, que estão com pressa, com fome, relaxados ainda com a tenra idade enfim, me mostram que estão ali como eu, indo ou vindo da própria existência, preparados ou não, vivendo de sustos ou não... mas estão ali, presentes naquele exato momento declarando suas intimidades em público como eu.
Toda essa vida me atropelada e sempre saio exausta desse buraco de tatú.
É por causa dessa invasão minha e dos outros é que venho escapulindo das pessoas... Acabo sempre toda misturada com todos e aí, socorro!
No Uber apesar do contato um a um, a prosa se resume a uma conversa mais trivial. O melhor trajeto, o transito, o clima... às vezes encontro alguém transbordando mas quase nunca. A solidão dos espaços privados faz isso com as pessoas, reduz sua expansão.
Enfim... por vezes o mais perto é tão mais longe...
domingo, 31 de outubro de 2010
A CREDULIDADE MATA
Sou a credulidade em pessoa. Ouço os absurdos mais óbvios do mundo e sempre acredito. Acredito em tudo mesmo. Sou capaz de sonhar com essas besteiras dormindo ou acordada. Sou a idiota em pessoa.
- Você é de uma beleza fora da média. Gordinha coisa nenhuma, você está é muito sexy, muito sensual. Queria ser como você que quando entra, todo mundo olha.
- Você ainda é muito jovem, já, já encontra sua alma gêmea.
Cansei de acreditar nesses loucos e decidi colocar tudo em pratos limpos.
A alma gêmea só aparece para quem não está esperando por ela, para quem não a procura. Os desesperados como eu, não têm a menor chance de encontrá-la. No meu caso, o mais perto que cheguei foi um esbarrão.
Inesperadamente conheci alguém e tive a sensação de que o conhecia a vida toda. Os olhares eram profundos, as conversas fluíam como água corrente. Transformei-me no ser mais espirituoso do mundo, tudo que dizia soava engraçado e inteligente. Num piscar de olhos, nos transformamo em verdadeiros Deuses. Juntos éramos poderosos, maravilhosos. Paraíso, perfeição! Eu olhava para o dito cujo e só pensava em abraçá-lo, beijá-lo, em fazer amor com ele. O lugar certo era ali com ele, onde estivesse. Mas para as azaradas como eu, nada é fácil. Ele não estava nunca ao meu lado, morava em outra cidade, e só nos encontravamos de duas em duas semanas.
Aprendi a esperar pelo momento em que poderíamos estar juntos. Um belo dia não aguentei mais esperar e me declararei. E só então descobrir o que? Diga-me, o que? Descobri que o desgraçado é casado, casado!!!! Foi a pior burrice que fiz na vida!
É obvio que o resultado foi péssimo. Até parece que eu ia me meter no casamento dos outros, já tenho muitos tikuns para resolver nessa vida. Só queria dizer adeus de forma especial. Mas é isso aí, as impossibilidades são arrebatadoras e acabam achando em nosso peito o que temos de pior. Ele se transformou no sapo mais egocêntrico e covarde que conheci, e eu me tornei a mais triste das todas. Tinha tanto para ele, e o que ficou foi a sombra do que poderia ter sido.
E agora? Vou ter que esperar a próxima encarnação para achar esse vacilão mais uma vez e torcer para que dessa vez ele esteja pronto, solteiro e com coragem de me encontrar? Quantas encarnações terei que esperar por ele? Sim porque da forma que se comportou, ele ainda vai ralar muito para ser merecedor de sua alma gêmea, ou seja, eu. Ah, não é justo, essa vida não é nada justa!
E a beleza? A beleza acaba e ponto final. Quando temos grana e podemos lançar mão dos avanços da cosmética ou da cirurgia plástica, retardamos o momento fatal que é o dia em que você realmente se vê. Quando você vê a nova, a velha, a atual, você! Se você não tem subterfúgios para fazer esse adiamento, se depara com a realidade, a sua cara vira uma máscara tão diferente de você mesma que dá até medo de olhar. Outro dia passando na frente do espelho, me olhei de relance. Deus me livre, quase tive um troço. Fala sério, nenhum ser humano que tenha passado por momentos duros na vida, o que com certeza é a maioria das pessoas, deveria ter que passar por isso. É traumatizante e só deveria acontecer sob a supervisão de algum velho amigo de plantão. É inacreditável, não dá para aceitar e quem diz que aceita está mentindo para si mesmo, e é um mentiro empedernido.
E essa coisa de gordinha sexy, o que é isso? Quem diz isso ou precisa urgentemente de óculos ou é outro mentiroso empedernido. Fala sério. Gordo é gordo, não um magro em momento de transição. Se você está acima do peso há mais de cinco anos, você agora é um gordo! Pronto, falei! Não adianta disfarçar. Ou você se toca ou vai acabar com diabetes e quem sabe tendo que amputar algum membro. Para de ficar se lembrando de como seu corpo era lindo, só músculo e bumbum. Para de achar que por trás da sua imagem atual ainda mora aquela gata. O que mora atrás da sua imagem atual é muita gordura. Se toca!!!
Tendo feito aqui meu desabafo, vou passar o filtro solar, colocar meu tênis e ver se encontro minha alma gêmea no calçadão.
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
PANELAS E CUMBUCAS
Tenho cozinhado bastante. Inicialmente por obrigação e aos poucos, por prazer.
No computador que mora em meu coração, é só tocar a tecla certa e a memória dos momentos culinários se abre de imediato.
Cozinhar para mim é igual à vovó.
Lembro-me dos momentos deliciosos em sua cozinha. Como era bom o cheirinho dos doces que faziam com tanta paixão. Ela previa o sabor de cada um e se deliciava antecipadamente.
Cozinho instintivamente, porque minha real função na cozinha lá de casa, era separar claras e gemas e principalmente raspar as panelas e cumbucas. Não foi à toa que na minha gravidez engordei 20 kilos ao fazer os doces de nosso restaurante do interior. Fazia muitas tortas por dia, ou seja, passava a maior parte do dia envolvida nessa lembrança de infância. Era só chegar à bancada dos doces e já matava imediatamente um pouquinho das saudades da vovó. Não sei como minha filha não nasceu com a cara dela ou pelo menos com cara de cumbuca.
Adorava vai escolher os ingredientes para cada prato. Como eu faço hoje em dia, ela separava tudo em potinhos e aos poucos ia juntando aqueles temperos deliciosos, aqueles matinhos com nomes engraçados. Salsinha que não era estilo de música no diminutivo, louro que não era a cor do cabelo do menino mais lindo da escola, canela que não era parte do corpo, enfim, um milhão de nomes que ela conhecia com intimidade.
Hoje minha filha também por instinto, não come qualquer coisa. Não que exija comidas sofisticadas, mas sim, comidas feitas com carinho. Cozinhar para ela é um prazer que abraça nós duas. Eu, revivo momentos preciosos, e ela vai arquivando em sua memória seu próprio passado.
sábado, 16 de outubro de 2010
UM ANJO
Hoje, eu descobri um anjo.
É assim mesmo que funciona, eles existem e se camuflam por aí. À paisana não percebemos sua presença.
Aí um belo dia eles se descuidam e damos de cara com eles, assim, sem mais nem menos. Um pequeno gesto ou um olhar nos mostra quem são, sua verdadeira identidade.
Um anjo não é aquele que faz milagres e sim aquele que está no local certo bem na hora em que você precisa.
Às vezes é preciso apenas um aperto de mão, por vezes, um pouco mais, mas eles sempre sabem o que te falta, o que te salvará: um pouco de esperança, um pouco de realidade, um pouco de amor, de reconhecimento.
Sou grata a todos os anjos que conheci, a cada pequeno milagre que me faz acreditar.
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
O SEGREDO
A felicidade é um momento, não é?
É o momento da compreensão. Quando seu olhar toca alguém e você percebe que contou naquele segundo uma história inteirinha. Naquele segundo, todos os instantes colecionados na vida, estão ali.Todas as histórias felizes ou não, tudo de tudo está contido ali.
O olhar do outro te diz, sim, entendi, sei do que está falando, reconheço o que está me contando. Estamos juntos!!!!!
É um momento de pura magia! Em silêncio posso contar um grande segredo, entendido por todos.
Sem esses momentos não sou nada, não sei dizer nada. Nesses momentos sou feliz, posso ser todas que sou.
Esse é o segredo de ser uma atriz!
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
MEU PAI
Meu pai era um homem misterioso. Muito silêncio, poucos olhares, mas um sorriso largo e contido que encantava a todos. Parecia que vivia a vida que escolhera, ao mesmo tempo em que demonstrava sempre uma amargura que denunciava sua insatisfação com a vida.
Nossa relação sempre foi ambígua. Não gostava do controle que exercia sobre mim, mas gostava dos seus talentos. Era um homem que andava pelos campos te dando todo tipo de sementes e folhinhas para comer e chamando os passarinhos usando os vários "pios" que colecionava. Sabia o nome de todos os pássaros e de todos os animais viventes na Terra ou em qualquer outro planeta do sistema solar.
Construía suas casas e plantava suas árvores. Em uma das fazendas, construiu uma casa rodeada pelo pomar mais interessante que se possa imaginar. Conforma as árvores cresciam, ele construía mais um andar para que pudesse ver toda a fazenda por cima da copa das árvores e correr a tempo de apagar os vários incêndios que ocorriam no inverno. Tinha tantas habilidades que era impossível não ficar fascinada. Tudo parecia tão fácil para ele, sempre tinha um jeitinho para tudo. Com um simples elástico era capaz de prender um universo inteiro. Vejo-o hoje em dia, em mim e na minha irmã. Nós também somos poderosas, somos muitas, mas a diferença é que ainda não aceitamos isso.
domingo, 19 de setembro de 2010
EU E ELA
Domingo à noite, o pesadelo dos pesadelos!
Eu aqui sentada chorando por tudo, pelo o que foi e pelo o que é.
Espero minha filha chegar de viagem e já me sinto como ontem, entro no túnel do tempo. Uma onda de tristeza vem chegando e me alcança com um soco. Lembro-me! Ando me lembrando de tudo e assim, sinto tudo mais uma vez. Sinto-me chegando em casa sozinha, no escuro, no silêncio, numa casa vazia. Vazia de tudo, vazia de tudo!
Era assim que eu vivia, sozinha... Quando pequena minha mãe dizia que ao contrário de minha irmã que dava muito trabalho, eu ficava quietinha no meu canto horas a fio. Com certeza, foi aí que aprendi que se ficasse quieta, talvez ela gostasse um pouco de mim, talvez ela me aceitasse. Não fui autista por pouco de tanto que gostava dela. Nunca soube bem porque, nunca conseguir entender claramente. Talvez eu visse algo mais, por trás daquela distância, talvez eu visse sua própria dor e sentisse pena dela. Às vezes acho que é isso. Gosto dela não pelo que ela me deu, mas pelo que ela não deu. Pelo que ela não pode ser de tanta dor que a acompanhava. Essa compreensão não deveria me deter. Não deveria me impedir de odiá-la por tudo que fez e que não fez, mas, me rendo, sempre me rendo a ela. Mesmo depois de morta, ela vive sua tristeza em mim.
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