sexta-feira, 29 de outubro de 2010

PANELAS E CUMBUCAS

Tenho cozinhado bastante. Inicialmente por obrigação e aos poucos, por prazer.
No computador que mora em meu coração, é só tocar a tecla certa e a memória dos momentos culinários se abre de imediato.
Cozinhar para mim é igual à vovó.
Lembro-me dos momentos deliciosos em sua cozinha. Como era bom o cheirinho dos doces que faziam com tanta paixão. Ela previa o sabor de cada um e se deliciava antecipadamente.
Cozinho instintivamente, porque minha real função na cozinha lá de casa, era separar claras e gemas e principalmente raspar as panelas e cumbucas. Não foi à toa que na minha gravidez engordei 20 kilos ao fazer os doces de nosso restaurante do interior. Fazia muitas tortas por dia, ou seja, passava a maior parte do dia envolvida nessa lembrança de infância. Era só chegar à bancada dos doces e já matava imediatamente um pouquinho das saudades da vovó. Não sei como minha filha não nasceu com a cara dela ou pelo menos com cara de cumbuca.
Adorava vai escolher os ingredientes para cada prato. Como eu faço hoje em dia, ela separava tudo em potinhos e aos poucos ia juntando aqueles temperos deliciosos, aqueles matinhos com nomes engraçados. Salsinha que não era estilo de música no diminutivo, louro que não era a cor do cabelo do menino mais lindo da escola, canela que não era parte do corpo, enfim, um milhão de nomes que ela conhecia com intimidade.
Hoje minha filha também por instinto, não come qualquer coisa. Não que exija comidas sofisticadas, mas sim, comidas feitas com carinho. Cozinhar para ela é um prazer que abraça nós duas. Eu, revivo momentos preciosos, e ela vai arquivando em sua memória seu próprio passado.

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